Na passada quinta-feira, dia 27 de fevereiro, decorreu na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva o debate “Coronavírus: silenciamento, desinformação e solidariedade”.

Participaram no evento Chen Yue, doutorando em Estudos Culturais pelo Instituto de Ciências Sociais, bem como Rosa Cabecinhas e Manuel Pinto, docentes do Departamento de Ciências da Comunicação do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho e investigadores do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade. A intervenção foi moderada por António Lázaro, professor do Departamento de História do mesmo instituto e diretor do Instituto Confúcio da Universidade do Minho.

Ao público presente colocou-se a questão de como se pode ter fontes seguras de informação. Na abertura do evento, “desafio” foi o termo utilizado por Aida Alves, diretora da Biblioteca: “comunidades, instituições e cidadãos fizeram com que este espaço [de conhecimento] fosse desafiado”.

O doutorando Chen Yue, chinês residente na Europa há sete anos, fez um relato de sua vivência num contexto em que a discriminação se implanta diante da falta de conhecimento. Relata não somente a discriminação sofrida por si, mas também a dirigida contra outros colegas chineses por parte da comunidade local. Nas ruas, nos supermercados e mesmo na universidade, as pessoas terão a postura de atribuir a difusão do vírus [COVID-19] a chineses e outras nacionalidades asiáticas. Segundo Yue, haverá uma explícita linguagem discriminatória entre jovens de idade escolar, com declarações do tipo “lá vêm os chineses”.

Rosa Cabecinhas levantou reflexões sobre como a discriminação pode disfarçar-se de medidas preventivas. Estabelecimentos comerciais, por exemplo, alegam exigência de segurança para afastar determinado tipo de clientela. Essa aproximação entre o agente biológico e a imagem do outro como perigo, segundo a docente, é o “tratar o outro como não totalmente humano” e atribui-lhe o caráter de potencial risco, que em alguns casos pode levar a casos de desumanização extrema. A discriminação não ocorre somente contra os chineses, mas também contra outras populações asiáticas que são “homogeneizadas como se fossem todos iguais”, uma expressão de racismo palpável em numerosas situações quotidianas.

Manuel Pinto deu sua contribuição, referindo o sensacionalismo gerado pelos média. Muito se fala sobre os crescentes casos suspeitos e confirmados. Estes discursos geram, consequentemente, alarme e a proliferação de informações não verificadas, assim como evidenciam o pouco conhecimento para lidar com o fato. Manuel Pinto destacou, ainda, que pouco se fala sobre os casos de recuperação da infeção, sobretudo aqueles ocorridos em território chinês.

De modo análogo, António Lázaro enfatizou que, ao longo da história, o pânico provocado pela disseminação de doenças, como as chamadas “Peste Negra” e “Gripe Espanhola”, ativaram comportamentos discriminatórios com a justificativa de culpabilizar o outro e justificar o seu extermínio.

O chamado Coronavírus – oficialmente designado COVID-19 – foi tornado público nos média globais no início de janeiro de 2020. Inicialmente detetado na província chinesa de Wuhan, espalhou-se por cinco continentes. Na China, já há um número considerável de contaminações revertidas até o momento.

Esta sessão foi uma iniciativa do MILOBS – Observatório de Literacia Mediática, em colaboração com o Programa Doutoral de Estudos Culturais da Universidade do Minho.

[Fonte: Lennon Noleto]
O Coronavírus e a informação – saber é conhecer?